Anky van Grunsven fala sobre a Dressage e a Música
Anky revela-nos um pouco das suas experiências pioneiras na criação de músicas especialmente adaptadas para os seus cavalos. Os compositores, as dificuldades sentidas, e os resultados alcançados, os seus gostos musicais… e as semelhanças e encontros entre os mundos da Dressage e da Música.
Autoria: Rob Smetsers | Tradução: Ana Escoval
Proposta: pesquise as palavras “verlegen meisje uit Erp” (rapariga tímida de Erp) no Google.
No topo da pesquisa surgirá “Anky Van Grunsven”, três vezes campeã olímpica e uma das cavaleiras do século.
Mas porquê “tímida”? É essa a palavra que ela utiliza para se descrever na sua juventude, distante da posição de celebridade da Dressage que ocupa actualmente. Anky recorda as músicas da sua juventude – “ o meu grupo favorito eram os ABBA, mas não ousava contar a ninguém. Ainda hoje gosto das suas canções e por vezes oiço quando estou bem-disposta. Em criança aprendi alguns instrumentos, primeiro flauta e depois órgão. Actualmente tenho um piano em casa, mas penso que só voltarei a ter aulas daqui a uns dez anos. Considero a música muito importante.”
Na dressage de competição a música é um elemento essencial, uma vez que a escolha e a interpretação da música são factores considerados na avaliação do júri. Por essa razão, Anky van Grunsven e o seu treinador e companheiro Sjef Janssen, sempre procuraram atingir o nível mais elevado nesse domínio.
Desde 1996, ano em que iniciaram a colaboração com o duo de compositores Cees Slings e Victor Kerkhof Zorgde, revolucionaram o mundo equestre. Tecnologias como o vídeo e a informática foram utilizadas para fazer a compatibilização perfeita entre a música e a coreografia equestre.
Esta colaboração culminou numa estreia mundial: a primeira peça musical criada especificamente para um cavalo de dressage – A Sinfonia Bonfire (Bonfire Symphony). “O público ficou maravilhado com a kür, mas levou algum tempo a habituar-se a uma obra sinfónica desconhecida. Numa prova não há tempo para isso, para assimilar uma nova composição… ouvimos e vemos a acção imediatamente.”
Este facto levou a que nas coreografias seguintes optásse por músicas mais populares, como as bandas sonoras da série de filmes do James Bond, música francesa, tangos populares ou o West Side Story de Bernstein. “ Todas estas coreografias me são caras, sou incapaz de montar com músicas que não gosto”, refere Anky van Grunsven, “A West Side Story é a minha favorita.”
Estimulantes
A música que Anky levou a Atenas em 2004, na sua kür Olímpica, mantém-se memorável em vários aspectos, primeiro, porque com ela conseguiu o ouro, mas também por outro feito nunca antes visto… é a própria cavaleira que empresta a sua voz na vocalização de La Belle Histoire de Michel Fugain… dabada badaa dada padabada … Foi uma ideia corajosa de Slings e de Kerkhof e tudo correu bem; no entanto, para Anky, revelou-se mais simples ensinar um cavalo difícil do que lidar com o seu nervosismo em estúdio.
“Cada vez que me sentava para gravar não me atrevia a cantar e pensava: O que estou eu aqui a fazer? Mas porque estou a fazer isto?” Mas como Corry Brokken*1, que graças a um trago de conhaque no seu café, cantava o Milord de Edith Piaf, Anky também beneficiava com um estimulante… “Depois de dois copos de vinho era melhor. Eu estava mais relaxada e, por fim, no final das gravações o som estava natural. Mas sempre, durante a kür ria para mim própria nessa parte.”
O encontro entre a Dressage e o mundo da música
Slings e Kerkhof também incentivaram a cavaleira a apresentar-se fora das competições.
Em 1999 os mundos da Dressage e da música clássica encontraram-se na casa da música de Enschede. Anky e Bonfire apresentaram-se ao som da Sinfonia Bonfire, interpretada ao vivo pela Orquestra do Leste*2, conduzida pelo maestro holandês Jaap van Zweden.
Foi um prelúdio para as performances que se seguiram com diversas orquestras e grupos musicais, nomeadamente: a Orquestra Metropole, o Coro Mastreechter Staar e o Sexteto Canyengue com Carel Kraayenhof e Wibi Soerjadi.
Muito em breve, nos dias 2 e 3 de Novembro próximos, Anky estará presente num concerto hípico na Academia Bartels em Hooge Mierde, onde irá montar ao vivo com música da estrela pop holandesa Trijntje Oosterhuis, conjuntamente com Imke Schellekens-Bartels e Jean-Francois Pignon
Anky van Grunsven tem consciência que este tipo de eventos ajudam a divulgar a Dressage. “Se apenas nos apresentarmos em competições sempre no mesmo circuito torna-se difícil cativarmos novos públicos para este desporto. Se promovermos o desporto, acabamos por aproveitar também.”
Esta forma de abordagem à sua profissão é de algum modo pioneira “Não quero parecer arrogante, mas penso que eu e o Sjef iniciámos, em muitos aspectos, uma nova tendência. O Sjef especialmente, busca sempre a inovação. Eu estou satisfeita com o que tenho alcançado, mas se alguém me convence sobre uma ideia inovadora eu gosto de arriscar.”
“Os cavalos não têm sentido para a música”
A música para a kür apresentada nos Jogos Olímpicos de 2009 em Beijing foi composta pelo pianista e compositor Wibi Soerjadi, que já anteriormente tinha composto com sucesso para a cavaleira Imke Schellekens-Bartels. A colaboração entre Soerjadi e Anky foi um acto arriscado e corajoso.
“Entre nós existem muitas parecenças, ele é um perfeccionista como eu. O trabalho pode estar a correr bem, mas há que esperar para ver e isso cria alguma tensão. Eu procuro uma música que me facilite a tarefa de montar, enquanto ele procura criar uma obra que corresponda às suas aspirações musicais.”
Dance of Devotion é uma obra composta para uma Orquestra sinfónica com 70 músicos e este foi literalmente um número de sucesso. Anky ganhou por três vezes consecutivas o ouro com esta composição, e os membros do júri internacional classificaram-na com a pontuação máxima - “10”.
A opinião de Anky é que “os cavalos não têm sentido para a música. Eles respondem, uns mais que outros, ao volume, ao ritmo e à batida. Salinero, por exemplo, é sempre um pouco complicado no galope largo. Na primeira versão de Wibi, a música acentuava esse comportamento… nós saltámos quase um metro para o ar! E assim sendo, ele teve de tornar a música mais calma. Em todo o caso, é uma verdade incontornável que a música da kür tem que ser adaptada ao carácter natural do cavalo, senão, não resultará.”
Anky adoraria utilizar um tango apaixonado com Bonfire, mas apercebeu-se que esse não é o estilo adequado para o comportamento de um cavalo castrado: “ O Bonfire é um cavalo bonito e leve, e isso não se adequa ao tango. No caso de Painted Black ou de Krack C, já os posso montar com um tango, pois eles são verdadeiros garanhões!”
Semelhanças entre o desporto de alta competição e a música
Existem paralelismos no modo como Soerjadi e Anky encaram o seu caminho profissional. “A emoção com que ele fala sobre os seus pianos é a mesma com que eu falo sobre os meus cavalos, e o que pensei está correcto: Olá, tu tens um piano!… e não estou a brincar, pois a intensidade com que ele treina não é diferente da minha com o desporto.” Anky encontra muitas semelhanças entre os músicos e os desportistas profissionais. Nas duas profissões a paixão e o perfeccionismo são essenciais quando se atinge o mais alto nível.
As felicitações à Orquestra do Brabante*3, são por isso, mais que um gesto, o reconhecimento do esforço dos membros da orquestra em apresentar-se ao mais alto nível e continuarem o seu desenvolvimento.
Anky está a preparar-se para a vida depois da competição e tornou-se numa mulher de negócios de sucesso. Ela é a face da sua “casa” de Dressage e da linha de vestuário equestre com a marca Anky Technical Casuals. Na sua propriedade em Erp, o seu centro de treino está a ser alargado para um espaço destinado a receber cavaleiros interessados em participar em clínicas e palestras, incluindo alojamento.
A sempre tímida amazona de Erp, praticamente já viajou por todo o mundo. É agora tempo de o Mundo viajar até Erp… e de Anky finalmente tocar piano… .
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Este artigo foi publicado originalmente na revista holandesa “deKlank” no mês de Outubro de 2009, por ocasião da celebração dos 60 anos da Orquestra do Brabante.
A Dressage Portugal agradece ao seu autor Rob Smetsers e Anky van Grunsven, terem autorizado a sua tradução e publicação em Portugal.
Veja aqui o artigo original em Holandês.
Fotografias (por ordem de aparecimento no artigo):
foto 1, página principal – Anky van Grunsven | Provincie Noord-Brabant
foto2 - Sjef, Wibi e Anky
foto 3 e 4 - Wibi e Anky, Brooke Hospital
foto 5 – Anky com Nelson | Liesbeth Russel
foto 6 – Anky, Wibi e Imke Schellekens-Bartels
Notas do tradutor:
*1| Cantora e actriz holandesa que venceu o festival Eurovisão da canção em 1957
*2 | Orkest van het Oosten
*3 | Brabants Orkest












