Arthur Kottas-Heldenberg mais uma vez em Portugal
2009-05-04 12:45 amAcompanhámos um dia de estágio na Quinta de S. Miguel, e convidamos os nossos leitores a conhecerem um pouco mais desta particular abordagem ao ensino do cavalo e do cavaleiro.
por: Camila Rodrigues e Ana Escoval.
.
.
Arthur Kottas-Heldenberg, cavaleiro chefe da Escola de Viena durante 22 anos, visitou pela terceira vez o nosso país para ministrar um estágio de ensino.
O estágio de 4 dias (de 30 de Abril a 3 de Maio), decorreu na Quinta de São Miguel, que apesar da sua localização em terras alentejanas, mais precisamente nos arredores de Grândola, revela no nome a origem açoriana dos seus proprietários.
Catarina Ataíde e os seus irmãos, têm vindo a desenvolver, desde há dois anos, as instalações da Quinta onde pretendem implementar um projecto equestre destinado principalmente ao ensino de cavalos. Complementarmente em associação com o Centro de Biotecnologia da Universidade dos Açores, está prevista a instalação de uma Clínica Equina, a par de uma componente de alojamento turístico.
A Dressage Portugal acompanhou um dia de estágio, que contou com a participação de quatro cavaleiros de nacionalidade Portuguesa e Alemã, e seis cavalos de raça Lipizzaner, originários da coudelaria do Prof. Artur Machado que também esteve presente na Quinta de S. Miguel.
Maestoso Amena, um poldro inteiro de 4 anos, desperta imediatamente o interesse pela qualidade dos seus andamentos e pela evidente finura do seu carácter. Enquanto é trabalhado à guia, Arthur Kottas explica a importância do trabalho com poldros: “ é necessário construir um cavalo desde o princípio. O primeiro ano de treino é um ano muito importante. É como uma criança no jardim-de-infância. Se a criança odiar o jardim-de-infância, será difícil não odiar a escola. Se o cavalo tiver uma má experiência, isso irá ter repercussões para toda a vida. É sempre mais difícil reconstruir alguma coisa do que construir desde o início”.
Sendo esta a fase inicial do treino do cavalo, desempenha um papel vital em todo o seu desenvolvimento futuro, tanto a nível físico como psicológico. Este trabalho, realizado num momento em que o cavalo não está ainda plenamente desenvolvido, exige uma adequação ao seu estado evolutivo e às suas características próprias. Não quer isto dizer que o cavaleiro deva esperar pelo total desenvolvimento do cavalo, dado que, nas suas palavras, “o resultado de nada é nada”, pelo que o ensino deve “levar o seu tempo, mas não desperdiçar tempo”, sendo que “o próprio cavalo dirá com que rapidez poderá evoluir”. Assim, numa fase inicial, é necessário trabalhar de forma correcta a massa muscular e a postura do cavalo, para que este se desenvolva adequadamente na atitude certa.
Para alcançar os resultados desejados, Artur Kottas assinala a importância do trabalho à guia em voltas largas que permitam ao poldro encontrar o seu equilíbrio e estar para a frente no movimento, sem esforçar os tendões ainda em desenvolvimento. Realça o cuidado a ter no ajuste das rédeas fixas, de forma a não reter o movimento do cavalo e a criar tensões, apenas com um ligeiro contacto, e a utilidade do trabalho de cavaletes a trote, tanto à guia como montado.
Todos os cavalos presentes no estágio foram inicialmente trabalhados à mão, com mobilizações, transições e paragens numa postura correcta, alternadas com o movimento para a frente e recompensas atempadas, favorece a activação dos posteriores e a aprendizagem das ajudas. A importância atribuida por Arthur Kottas ao trabalho à guia e à mão é igualmente evidente nos cavalos mais experientes, como Pluto Wera, um garanhão de 10 anos com um tipo barroco, que também participou no estágio.
Concentrando-se nas aptidões necessárias a um bom cavaleiro, e tendo por objectivo máximo a harmonia entre este e o cavalo, Arthur Kottas salienta a necessidade de se adequarem as ajudas ao cavalo, ter a sensibilidade de recompensar no momento certo e de não insistir demasiado no mesmo exercício, quando o mesmo já foi realizado com correcção. Uma postura correcta, que permita a independência das ajudas, é a base sobre a qual pode ser construído o bom cavaleiro: “temos que perder muito tempo com o nosso assento, para que fique cada vez melhor, mais suave. Temos que aprender a usar as costas sem ficarmos tensos entre os ombros”. Na sua evolução inicial, o cavaleiro deve “ter aulas num cavalo ensinado, que seja montado pelo treinador, para que este saiba exactamente o que acontece por culpa do cavaleiro ou por dificuldade do cavalo”.
O bom cavaleiro necessita igualmente de auto-controle. Nas suas palavras, “se o cavaleiro não consegue controlar o seu temperamento, nunca conseguirá controlar o animal, e isso é um facto. Por isso é importante controlar o temperamento e não ficar zangado, ou tenso, e ser injusto, porque o cavalo está disponível para trabalhar. Se falamos de parceria entre cavalo e cavaleiro, se brigamos todos os dias com o nosso parceiro não é uma parceria e é preferível seguir caminhos diferentes”.
Quanto à aptidão do Lipizanner para a dressage de competição, Arthur Kottas considera que “fariam um bom trabalho porque têm uma grande aptidão para os exercícios de exigem reunião como o piaffer, a passage, as piruetas. Como sabemos, em Grande Prémio, cerca de 60% dos exercícios são piaffer, passage, transições, pelo que se tiver boas pontuações aí, e não falhar nos outros exercícios, está à frente dos outros. Talvez nas extensões não tenham o mesmo poder que um cavalo maior. Temos Lipizzanners, como estes aqui, que não são muito altos mas mexem-se muito bem. Depende da forma como são treinados. Não podemos esquecer que é um cavalo barroco, mas pode ser muito bom e ter muito sucesso na competição contra raças de maiores dimensões”.
Arthur Kottas acrescenta que o mesmo se passa com os lusitanos: “vi aqui cavalos muito talentosos e brilhantes, mas nem sempre a melhor equitação. Vi alguns lusitanos e digo que se mexiam quase melhor do que os warmbloods, mas foram levados cedo demais a uma grande reunião, para fazer truques. Os lusitanos necessitam de mais tempo.”
Relativamente à sua postura pessoal no que respeita à prática equestre, Arthur Kottas confessa que “não é apenas competir. Para mim trata-se mais de cultura equestre, coordenação entre assento, peso, perna e rédea. Sentir o que usar e quanto se pode usar. Há muito mais harmonia, mas não significa que tem que se ser um competidor. Vi cavaleiros brilhantes que não estão interessados em competir, mas ninguém os reconhece porque não estão nas notícias, Jogos Olímpicos, campeonatos. Se fôr o campeão do mundo em sua própria casa ninguém se interessa. Por vezes os cavaleiros de dressage não são brilhantes, mas têm dinheiro e um bom treinador que torna os cavalos fáceis de montar. Trazer um cavalo novo até este nível e chegar a um ponto em que se ganha é que é bastante positivo”.
Grândola, Maio de 2009












