Do Trabalho de Poldros
NOTAS SOBRE EQUITAÇÃO, por Miguel Ralão Duarte
A Dressage Portugal apresenta na sua rubrica Arte & Técnica o primeiro, de uma série artigos da autoria do cavaleiro Miguel Ralão, que irão abordar as várias etapas do ensino de um cavalo, e que nesta edição é dedicado ao Desbaste.
Acreditamos que este contributo de um cavaleiro com tão grande experiência prática, será uma grande mais-valia para a consolidação dos conhecimentos teóricos subjacentes a esta disciplina e de grande utilidade para todos os seus praticantes.
Do Trabalho De Poldros
O cavalo é um animal que, no seu estado selvagem, natural, é, por um lado, sempre presa e nunca predador, e por outro, por viver em manada, é um ser com alguma complexidade de comportamentos sociais. A posição de presa faz com que seja um animal sempre muito atento e muitas vezes medroso em relação a qualquer situação em que não se sinta confortável, por outro lado o seu instinto social pode levar a reacções específicas, seja ele um garanhão ou uma égua, reacções que em determinada situação, devem ser avaliadas em perspectiva pelo cavaleiro.
Estes são factores essenciais a tomar em conta quando iniciamos o trabalho de um cavalo novo, já que o homem irá ser o elemento de contacto com este mundo tão pouco natural onde ele passará a viver a partir do momento que o seu desbaste se inicia.
O trabalho com um cavalo, como tudo na vida, não passa de uma sequência de opções que vamos tomando e onde devemos ter em conta estes factores, bem como aspectos de natureza de disciplina, relacionados com a conformação e o desenvolvimento do cavalo em questão e, naturalmente aspectos técnicos. Tudo isto, “regado” com uma boa dose de bom senso e alguma humildade, normalmente permite levar o trabalho a bom porto, ou seja, transformarmos determinado animal, que “em bruto” é somente um animal admirável, num animal com uma função, que, regra geral, se torna mais harmonioso, e agradável para quem o utiliza.
Hoje em dia a criação cavalar sofreu uma evolução muito positiva, já que é raro encontrarmos poldros para desbastar que estejam completamente “selvagens”, mas, ainda assim, manda o bom senso que se tenham algumas precauções de maneira a evitar acidentes bem como traumas, já que a fase do desbaste irá marcar o modo como o cavalo se irá relacionar com o homem para o resto da sua vida. É importante tentar, o mais possível, ter uma rotina de procedimentos que nos permita ter segurança e confiança em todos os passos, bem como transmitir confiança ao cavalo nesses mesmos passos.
Quando iniciamos o trabalho com um cavalo jovem, devemos ter em conta que, seja qual for a sua raça, ou conformação, ao ser sujeito ao peso do cavaleiro sobre o seu dorso, há uma imediata mudança no seu equilíbrio natural, o que pode provocar reacções várias que devem ser avaliadas tendo em conta, essencialmente, a conformação e o temperamento do indivíduo.
Introdução ao maneio, rotinas de trabalho, adaptação a novos hábitos alimentares, arreios e trabalho inicial à guia podem levar algum tempo, mas acho que se deve evitar saltar fases para tornar o desbaste mais rápido. Sem querer usar frases feitas, o tempo que se perde no desbaste, é tempo que se ganha mais tarde, pois cria bases de comportamento básico mais sólidas.
Uma situação comum no desbaste é vermos poldros que têm dificuldades de equilíbrio com o cavaleiro e que tendem a acelerar as passadas e, quando o cavaleiro tenta abrandar o movimento tomando o contacto nas rédeas, o cavalo “briga” com a mão e ainda anda mais. Para solucionar este problema, observamos muitas vezes a utilização de rédeas fixas ou corrediças para controlar a atitude do pescoço do cavalo e com isso obrigá-lo a aceitar a mão e reduzir a velocidade. Desta forma nunca permitimos ao cavalo aprender a andar e a equilibrar-se com o cavaleiro no seu dorso, o que provavelmente, se vai traduzir em dificuldade em fazer seja o que for sem o suporte da mão do cavaleiro. Este é o típico exemplo da “mão que vem para o cavalo” e não “o cavalo que vem para a mão”.
O objectivo desta primeira fase de treino do cavalo é exactamente o recuperar do equilíbrio natural que foi perturbado pelo peso do cavaleiro. Podemos mesmo dizer que a Baixa Escola não é mais do que o período de treino do cavalo em que este recupera todo o seu equilíbrio natural através dos exercícios básicos de picadeiro, que, com uma ginástica de flexibilização e fortalecimento lateral e longitudinal do seu corpo, nos permite a manutenção de vários ritmos dentro e entre os andamentos, bem como as mudanças de direcção em equilíbrio.
Um cavalo sem grandes problemas de conformação ou de temperamento, no fim desta fase deve:
- Conseguir manter o ritmo a passo, trote ou galope, sem a ajuda constante do cavaleiro e estar iniciado nas variações de amplitude dentro dos vários andamentos;
- Conseguir manter uma linha a direito ou em círculo;
- Manter uma atitude e contacto estável sem suporte do cavaleiro;
- Transitar do passo a trote e de trote a galope com fluidez e harmonia;
- Ter sido introduzido aos exercícios de marchas laterais, cedências à perna e espáduas a dentro;
Pessoalmente, costumo dizer que devemos tentar trabalhar um cavalo novo um “furo” ou dois acima do seu andamento natural, obviamente mantendo a calma e sem provocar desequilíbrios, para que, mais tarde, quando quisermos utilizar ajudas que “retêm” algum movimento, o cavalo ainda mantenha a vontade de andar para diante sem que haja necessidade do cavaleiro constantemente “empurrar”. Em inglês o termo self carriage é bastante explícito para o que pretendo dizer que se cria nesta fase. Só com este self carriage se pode atingir a concentração com brilho.
Outro ponto que parece importante realçar é que, quando começamos a ter um contacto correcto e estável num cavalo novo, no seu equilíbrio horizontal, este contacto não deve ser muito “ligeiro” (variando naturalmente de caso para caso), no sentido habitual da palavra ligeiro, visto que a ligeireza aparece por uma transposição de peso para a pós-mão e consequente flexão dos curvilhões, abaixamento das ancas, subida do garrote e subida da nuca, devendo o cavaleiro ter a preocupação de verificar com exercícios vários que este contacto não seja suporte.
…este artigo terá sequência nas próximas edições.












