Como detectar e sentir uma claudicação (parte 2)
No artigo anterior concluímos que seria muito importante, para ajudar no diagnóstico de uma claudicação, compreender os dados transmitidos e sentidos pelo cavaleiro, principalmente em claudicações ligeiras que poderão não ser evidentes num exame clínico de rotina. No primeiro artigo abordámos as dificuldades sentidas no trabalho no plano a trote e a galope. Neste novo artigo manuscrito vamos aprofundar um pouco mais este assunto, abordando as dificuldades sentidas em certos exercícios de dressage e também no salto de um obstáculo. Um artigo da autoria dos Médicos Veterinários Prof. Dr. Luis Athayde e Dr. Mário Galiza Mendes.
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Em primeiro lugar, para compreender as dificuldades sentidas pelo cavaleiro, teremos que perceber qual o membro mais forçado nos diferentes exercícios.
No caso de uma espádua a dentro a trote, verificamos que o membro mais forçado será o membro anterior do lado de fora, pois este é o membro que suporta mais peso (figura 1 e 2, filme 1). Por exemplo um cavalo com uma dor no momento de apoio do membro anterior direito, terá dificuldades e apresentará resistências a realizar uma espádua esquerda a dentro.
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Figura 1 – Espádua esquerda a dentro, o membro que suporta mais peso é o anterior direito (de fora)
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Figura 2 – Espádua direita a dentro – a) suspensão antes do apoio do membro de anterior dentro; b) apoio do membro anterior de dentro; c) suspensão antes do apoio do membro anterior de fora (elevação superior); d) apoio do membro anterior de fora (faz mais força no apoio).
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Filme 1
Na cedência à perna a trote o membro mais foçado é o anterior do lado para onde o cavalo se movimento, ou seja para o lado contrário ao da encurvação, por exemplo um cavalo com dor no apoio do membro anterior esquerdo, terá dificuldades e apresentará resistências a realizar cedência à perna esquerda (figura 3 / filme 2).
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Figura 3 – Na cedência à perna o membro mais forçado é o do lado para onde o cavalo se movimenta (contrário à encurvação) – neste exemplo o anterior esquerdo.
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Filme 2
Nos ladeares a trote os membros mais forçados são os do lado do movimento, ou seja os membros do lado da encurvação, por exemplo um cavalo com dor no apoio do membro anterior esquerdo, terá dificuldades e apresentará resistências a realizar um ladear para esquerda (figura 4 / filme 3).
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Figura 4 – No ladear para a esquerda o membro mais forçado é o anterior esquerdo.
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Filme 3
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Quanto ao galope já referimos, no artigo anterior, como se fazem os apoios dos membros. Verificamos que o primeiro tempo o cavalo apoia o membro posterior de fora sozinho no solo, no segundo tempo a diagonal posterior de dentro e anterior de fora e por fim o terceiro tempo anterior de dentro isolado no solo (figura n.º 10 do artigo anterior).
É importante também percebermos quais os membros que impulsionam o galope. Ao analisarmos este andamento verificamos que há uma movimentação basculante, havendo uma movimentação do corpo do cavalo para baixo, ganhando energia, para depois libertar essa energia e impulsionar o cavalo para cima e para diante iniciando o período de suspensão (figura 5).
Os membros que mais impulsionam o galope são os membros do lado de fora, tendo o cavalo mais dificuldade em galopar para o lado contrário ao lado do membro lesionado. Foi referido no artigo anterior as dificuldades que o cavalo apresenta no galope quando um membro posterior ou anterior estão lesionados.
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Figura 5 – No galope há uma movimentação basculante, havendo uma movimentação do corpo do cavalo para baixo, ganhando energia, para depois libertar essa energia e impulsionar o cavalo para cima e para diante iniciando o período de suspensão.
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Para compreendermos as dificuldades sentidas durante uma pirueta vamos primeiro descrever como se fazem as batidas neste exercício. No primeiro tempo deparamos que o posterior de fora se encontra sozinho no solo, no segundo tempo o posterior de dentro chega a solo, no terceiro tempo o cavalo apoia o anterior de fora, no quarto tempo dá-se o apoio do anterior de dentro e eleva-se o anterior de fora, por último elevam-se o anterior e o posterior de dentro, ficando o posterior de fora sozinho no solo.
Neste exercício o centro de gravidade está todo puxado para a parte posterior, sendo o membro mais forçado, nas piruetas a galope, o posterior de fora, pois além de ser o membro que impulsiona mais a pirueta, também é o membro que suporta todo o peso do cavalo isolado no solo (figura 6).
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Figura 6 – Batidas numa pirueta para esquerda.
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No salto podemos considerar três momentos, a batida, o salto propriamente dito e por fim a recepção. Normalmente um cavalo numa linha recta aborda o salto a galopar para uma mão e recebe-se a galopar para a outra, passando de mão durante o salto (figura 7 / filme 4). Isto poderá não suceder quando o salto se faz sobre um círculo. Na batida os membros acumulam energia com a hiperextensão destes, para depois libertarem essa energia e fazer com que o cavalo se projecte sobre o obstáculo.
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Filme 4
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Figura 7 – Numa linha recta normalmente o cavalo aborda o salto a galopar para uma mão e recebe-se a galopar para a outra (muda de mão durante o salto). Neste exemplo o cavalo abordou o salto a galopar para esquerda e recebeu-se a galopar para direita.
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Filme 5
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De igual modo ao que acontece no galope os membros que vão dar mais impulsão no salto são os membros do lado de fora. Sendo assim os cavalos tem maiores dificuldades nos saldos abordados a galopar para o lado contrário ao do membro lesionado.
Durante a recepção, por exemplo para a mão direita, o cavalo recebe-se com o anterior esquerdo e anterior direito ao mesmo tempo, ficando depois o anterior direito sozinho no solo, a suportar todo o peso do cavalo (figura 8 / filme 6), recebendo-se de seguida com o posterior esquerdo sozinho no solo e apoiando de seguida o posterior direito.
Neste caso o membro mais forçado vai ser o anterior direito (do lado de dentro) pois há um momento em que suporta todo o peso do cavalo isolado no solo (figura 8), dos membros posteriores o que vai suportar mais peso na recepção é o posterior do lado de fora, neste caso o esquerdo (figura 9).
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Figura 8 – Recepção dos membros anteriores a galopar para o lado direito; primeiro o anterior direito e esquerdo chegam ao solo (1), ficando em seguida o anterior direito sozinho no solo (suporta todo o peso do cavalo) (2).
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Figura 9 – Recepção dos membros posteriores a galopar para a direita – (1) posterior esquerdo sozinho no solo; (2) posterior esquerdo, posterior direito e anterior esquerdo no solo. Nesta sequência de fotografias está bem evidenciado que o membro posterior esquerdo (posterior de fora) no galope para a direita é o membro que mais impulsiona o galope, o cavalo ganha energia no apoio do posterior de fora (1 e 2), saindo para diante no fim desta batida (3 e 4) (setas vermelhas).
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Filme 6
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As dificuldades que o cavalo vai sentir quando aborda o salto poderão resultar em alterações no gesto de saltar, derrubes no obstáculo e recusas, os tão conhecidos borregos, parados de frente ou com fugas laterais.
Como referimos os membros que mais vão impulsionar o salto no momento da batida são os do lado de fora. Por exemplo um cavalo com dor no membro posterior esquerdo, irá apresentar dificuldades em dar a impulsão necessária para transpor o obstáculo quando este é abordado a galopar para a direita.
Na recepção o membro mais forçado é o anterior do lado de dentro, por exemplo um cavalo com uma claudicação do anterior direito vai ter dificuldade em receber-se a galopar para o lado direito, podendo o cavaleiro notar que o cavalo recebe-se repetidamente para a mesma mão, neste caso para o lado esquerdo.
Muitas vezes acontece que o cavalo ao abordar o salto, terá tendência em desviar-se para o lado contrário à mão dolorosa, para assim conseguir receber na mão contrária. Por exemplo no caso de uma claudicação do anterior esquerdo, quando o salto é abordado numa volta para a esquerda o cavalo terá tendência em descair para a direita, sendo assim mais fácil receber-se a galopar para a direita (figura 10).
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Figura 10 – No caso de uma claudicação do membro anterior esquerdo, na abordagem ao salto o cavalo poderá ter tendência em descair para a direita para deste modo ser mais fácil de se receber a galopara para a direita, não forçando assim o membro lesionado. A foto evidência o esforço que o membro do lado de dentro faz na recepção.
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Todas estas dificuldades deverão ser interpretadas com cuidado, pois na maior parte das vezes poderão não traduzir problemas físicos ou de dor, mas sim serem devidas a problemas de equitação. Será de extrema importância o diálogo entre o veterinário e o cavaleiro, de modo a que o veterinário consiga compreender as dificuldades e resistências que cavaleiro sente no seu cavalo, e que o cavaleiro saiba transmitir essas dificuldades e resistências, para se poder chegar a uma conclusão se estamos perante um problema físico ou de equitação.



















