Visitas: 1678638
Tempo:
Data e Hora:

Entrevista | Adelinde Cornelissen

Desde que em 2008 foram seleccionados como reservas da equipa olímpica holandesa de ensino, Adelinde e Parzival, que um acaso do destino juntou há 7 anos, tornaram-se imparáveis fazendo o seu caminho até à Final da Taça do Mundo onde obtiveram a 1ª e 2ª posições no Grande Prémio e no Freestyle, respectivamente. A cavaleira dá a conhecer os principais momentos do seu percurso na equitação e o que torna Parzival um cavalo tão especial.

Entrevista e fotografias: Ana Escoval

.

adelinde-prize-wc-finalAdelinde Cornelissen, holandesa com 30 anos de idade e natural de Beilen. Confirmou na Final da Taça do Mundo realizada nos dias 25 e 27 de Março de 2010 em ‘S-Hertogenbosch o admirável percurso que tem feito com o cavalo KWPN Parzival.

Esta entrevista foi realizada em Dezembro de 2009 por ocasião da qualificativa para a Taça do Mundo em Londres, no Olympia Horse Show, onde a cavaleira obteve a 2ª posição, tanto no Grande Prémio como Freestyle atrás do seu colega de equipa Edward Gal, fazendo já adivinhar os bons resultados agora obtidos na Final da Taça do Mundo.

.

Dressage Portugal (DP) – Como começou a montar e como se deu a opção pela modalidade de Dressage?

Adelinde Cornelissen (AC) - Comecei a montar com 6 anos de idade numa normal escola de equitação. No inicio eu fazia de tudo obstáculos, ensino, cross-country e apenas me especializei na dressage quando comecei a montar o Parzival.

No inicio era infernal montá-lo. Ele não é nada fácil e, antes de mais, tive que me certificar que saberia controlá-lo. Fazer obstáculos com ele estava absolutamente fora de questão, pois nem sequer consegui montá-lo num normal passo, trote, galope.

DP – Como é que Parzival entrou na sua vida?

AC - Após o secundário fui um ano para o Canadá para estudar inglês e trabalhar com cavalos, quando regressei fui contactada pelo proprietário do Parzival. Ele tinha passado pelas mãos de vários cavaleiros profissionais sem quaisquer resultados e o seu proprietário queria vendê-lo, pelo que me pediu que o mostrasse aos possíveis compradores e assim foi.

Só que ele acabou por não ser vendido por ser muito difícil e eu continuei a montá-lo.

DP – Há quanto tempo trabalha com Parzival e o que o torna um cavalo tão especial?

AC - Comecei a montá-lo há cerca de 7 anos… devia vê-lo… têm uma enorme personalidade.

Ele sabe o que quer e quando não o consegue fica completamente amuado e depois é capaz de mudar de completamente amuado para imensamente feliz em 30 segundos. Ele é… quase como humano… (risos)

DP – … e como consegue gerir essa personalidade de Parzival para que ele dê o seu melhor em pista?

AC - Bem… tem-me levado cerca de 7 anos a descobrir o seu manual de instruções mas agora já tenho algumas ideias sobre o seu funcionamento e as suas reacções (sorri).

DP – … e ele gosta de competições?

AC - No inicio era bastante assustador… gerir as pessoas, multidões, fotógrafos, mas ele agora gosta e adora ser o centro das atenções e está a sempre a ficar melhor.

DP – Existe algum episódio particular com ele que queira recordar?

AC - … na verdade todos os dias com ele são divertidos. Todos os dias ele faz qualquer coisa hilariante… recordo-me de uma particularidade… quando fiquei com ele, ele recusava tudo o que fossem maçãs, cenouras, cubos de açúcar. Actualmente ainda emite um resfolego e foge dos cubos de açúcar, mas há cerca de um ano começou a comer cenouras e demorou cerca de 5 anos até ele começar a comer maçãs… acho que isto faz dele uma espécie cavalo “esquisito”.

adelinde-conjunto-entrevist

DP – Como se deu a sua passagem de cavaleira amadora para profissional… o que fez diferença para que se tornasse uma cavaleira de topo?

AC - Eu só me tornei cavaleira profissional em 2008. Antes era professora e mesmo quando fui seleccionada para a equipa olímpica ainda era amadora. A certo ponto tive que desistir da minha profissão… tinha que optar entre a profissão ou a equitação, o que não foi uma opção difícil pois se já tinha chegado tão longe. Não fazia sentido desistir e continuei a montar.

Esta opção fez toda a diferença, pois pude concentrar-me completamente na equitação. Quando leccionava, montava apenas depois do trabalho, nem sequer tinha um picadeiro coberto… chegava a casa às 4 da tarde, deslocava-me a casa do proprietário do Parzival, transportava-o num atrelado até a um picadeiro coberto e por volta das 6 da tarde começava a trabalhá-lo.

Enquanto estava a montar lembrava-me que tinha que ligar ao pai ou à mãe de este e de outro aluno, corrigir e preparar os testes e as aulas. Era muito desgastante psicologicamente e impedia que eu me concentrasse na equitação.

DP – Quais são as suas principais influências como cavaleira?

AC - Só tive dois treinadores. O primeiro foi Johan Hamminga que é muito bom a ensinar cavalos desde as bases aos níveis mais elevados de forma muito gradual.

Desde que estive na equipa olímpica comecei a treinar com Sjef Janssen, que é treinador da equipa holandesa, e ele ensinou-me imenso… com ele os meus resultados melhoraram em cerca de 10% e acho que isso diz tudo.

DP – O que mais a atrai no trabalho com cavalos?

AC - O que realmente gosto é de ver a evolução de cada cavalo dia após dia, de trabalhar directamente com os cavalos e vê-los melhorar. Ver como é que eles se vão alterando e arranjar soluções para cada novo problema que surge.

DP – Quais são os planos futuros para Parzival e para a sua carreira como cavaleira?

AC - Actualmente Parzival tem 12 anos e daqui a 3 anos temos os Jogos Olímpicos. Acredito que isso será possível para ele aos 15 anos e é esse o nosso plano, assim como todas as grandes competições que acontecerem dentro desse período, como os Jogos Equestres Mundiais.

DP – Uma vez que esta revista é de Portugal, gostaria de perguntar-lhe se conhece o Cavalo Lusitano e qual a opinião que tem dele?

AC - Sim conheço, de facto até tenho alguns alunos proprietários de lusitanos. No inicio não sabia muito deles mas há medida que fui trabalhando com os alunos posso dizer que gosto muito da sua inteligência.

DP – Em jeito de conclusão, que conselho daria ao jovem cavaleiro que ambiciona fazer carreira na dressage?

AC - Manter os olhos bem abertos e querer sempre aprender com toda a gente. Trabalhar no duro pois sem isso não conseguirá lá chegar. Estabelecer um objectivo e mantê-lo até conseguir alcançá-lo.