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Equitação Natural: Lições para a Dressage

Sandra Dias da Cunha é instrutora e praticante de equitação western e de “natural horsemanship” no Centro Hipico da Costa do Estoril, que gere desde o ano 2000 a par com Michele Cristóvão. Desde há cerca de 5 anos Sandra tem investido na sua formação na área da Equitação Natural, seguindo os ensinamentos de Monty Roberts e de Norbert Gleissner, que pratica com os seus cavalos e com as montadas do centro hipico. Um dos seus maiores desafios e sucessos foi alcançado com égua Pretty Woman, de que é proprietária, e que foi montada habitual de Inês Mano Pires nos últimos dois anos, tendo alcançado destacados resultados na modalidade de ensino a nível nacional e internacional no escalão Junior. Sandra relata-nos como foram ultrapassados alguns problemas comportamentais desta égua, de maneira a melhorar a sua performance nas competições de ensino, com recurso a técnicas enquadradas na “equitação natural”.

por: Sandra Dias da Cunha com fotografias de Bruno Barata | Click here to read this article in English

003Quando arrastei a minha sócia para uma demonstração de Monty Roberts, foi mesmo preciso arrastar. Não é que ela tenha feito o caminho todo para a Alemanha só para ver um “encantador de cavalos”, afinal a viagem tinha objectivos sérios, mas a verdade é que saiu da demonstração  admitindo que “aquilo tinha qualquer coisa.” Isto foi há cinco anos.

Desde essa altura, tenho investido muito em formação na área de Equitação Natural, enquanto a minha sócia, Michele Cristóvão, foi construindo uma das melhores equipas jovens de dressage do país. Durante algum tempo, sentia que talvez estivéssemos a evoluir em direcções opostas, que a minha obsessão de procurar um caminho alternativo poderia vir a causar o fim da nossa parceria. Olhando agora para trás, verifico que, muito pelo contrário, a Michele teve abertura de espírito para ver que havia lições na área da equitação natural para o mundo de dressage. Assim, acabámos por desenvolver uma parceria harmoniosa entre dressage e equitação natural.

Para alguns a equitação natural é o caminho para a terra sagrada, enquanto que para outros não passa de uma “treta”. Na minha opinião, isso tem tudo a ver com a enorme diversidade de profissionais que praticam “equitação natural”, um nome cuja definição está francamente pouco clara. Afinal, se queremos mesmo ser naturais com os nossos cavalos, presumo que seria melhor soltá-los e deixá-los em paz, mas não é isso que pretendemos. Nesta matéria não existe preto ou branco, mas sim uma escala de tons de cinzento. Cada um deve decidir, conforme as suas ambições e emoções, o sítio onde quer estar ao longo da escala, que vai desde a liberdade total do cavalo até à escravatura total.

Sempre foi óbvio para mim que quem compete com o seu cavalo, seja em que disciplina for, vai sempre ter uma tendência menos naturalista do que aquela que um cavaleiro de lazer se pode dar o luxo de ter.  Mas isso não quer dizer que os cavaleiros de competição não podem aprender técnicas muito úteis da equitação natural, técnicas que permitem uma vida melhor aos seus cavalos e muitas vezes até um desempenho melhor na própria competição.

Neste artigo queremos falar de um exemplo de aplicação de algumas técnicas de equitação natural num cavalo de competição de dressage, a Pretty Woman. Esta égua, que em casa é mais conhecida como Pommes,  sempre foi um animal lindo, com grande potencial para a dressage e algo … especial.  Diz-se que as éguas lazãs são mais instáveis do que todos os outros cavalos e o próprio mestre Francisco Cancela Abreu disse-me uma vez que era óbvio que uma égua, que quase não toca no chão quando anda, não pode ter os pés firmemente na terra. Tem tudo lógica, mas torna a vida de competição bastante complicada.

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Quando tudo corria bem, a Pommes tinha óptimas pontuações, mas quando as coisas corriam mal, e isso era uma parte substancial do tempo, o resultado  era a desqualificação. Ora saltava da vedação para fora por não gostar da música, ora empinava por não querer chegar mais perto da casota do juiz, ora  era desqualificada por n outras razoes. Tudo porque a égua se tornava numa pilha de nervos, sempre com medo de alguma coisa, e por isso não  conseguia mostrar o que realmente valia.

Pouco a pouco começámos a enfrentar os medos dela com base nas técnicas que aprendi num curso introdutório Anna Kerckhoff de Sacchi, uma instrutora da escola de Monty Roberts que na altura vivia em Portugal e nos livros e vídeos que li e vi entretanto. Em primeiro lugar, usámos a técnica de habituação para lhe tirar o  medo dos sons e da música.

A égua passou a ter um iPod próprio com pequenas colunas instaladas na sua boxe. Durante uns tempos passou o dia a ouvir  música, até evoluir para a fase seguinte, durante a qual ouvia uma variedade de sons de todos os tipos, desde o ladrar de um cão até ao roncar de uma  moto-serra. Os mil sons diferentes passavam no iPod sem ordem fixa e, ao princípio, ela assustava-se consistentemente com alguns dos sons, mas, ao  longo do tempo, a habituação foi realmente efectiva e ela aprendeu a viver com os barulhos estranhos, tal como tinha aprendido a viver com a música.

Numa segunda fase, enfrentámos o medo do aplauso, que era sempre um grave problema na volta de honra. Para isso, usámos a técnica de  dessensibilização, que não é fácil de aplicar porque implica agir contra os nossos próprios instintos. Resumidamente, temos que continuar a insistir no  estímulo assustador enquanto o cavalo mostrar ansiedade. Quando o cavalo acalmar podemos retirar o estímulo. No caso do aplauso, o método tinha  alguma graça: sentámos um grupo de miúdos no canto do picadeiro e pedimos que aplaudissem conforme a reacção da égua. Só podiam parar de aplaudir  quando ela acalmasse. Esta técnica obteve resultados muito rápidos e, realmente, no decurso de meia hora, a Pommes passou a aguentar lindamente o aplauso.

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A seguir ao aplauso, usámos a mesma técnica de dessensibilização para lhe tirar mais alguns medos comuns: os sacos de plástico, as poças de água e os chapéus-de-chuva. Cada vez que o cavalo aprende a perder o medo de alguma coisa também aprende uma lição mais importante: que consegue suportar o medo e perde-lo. Com o tempo, a Pommes passou a reagir cada vez mais calma quando se via confrontada com alguma coisa desconhecida e assustadora. Desde essa altura, nunca mais perdeu uma prova por ser desclassificada. Ainda reage quando uma folha de papel voa para dentro da carriere, mas já não entra em pânico. Já fez duas épocas a competir no nível Juniores com óptimos resultados, ganhando a medalha de bronze no Campeonato de 2009 e o quinto lugar no Campeonato de 2010.

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