Fórum Internacional do Cavalo Lusitano na Dressage | 3º Dia – CONCLUSÕES
2009-11-03 12:50 amUm exemplo de uma coudelaria bem estruturada, planos e soluções de marketing para posicionar um produto agrícola no mercado, retrospectiva da tradição equestre em Portugal, a Dressage no passado, no presente e perspectivas de futuro, foram os temas abordados na última manhã deste fórum. O Painel de discussão deste fórum reuniu apresentou a todos as conclusões que resultaram deste fórum. A DP teve ainda a oportunidade de recolher as opiniões e conclusões de Miguel Távora (Cavaleiro e Treinador), Francisco Cancella de Abreu (Cavaleiro e Treinador), Mariete Withages (Juiza FEI) e Carlos Lopes (Comissão Organizadora e Selecionador Nacional de Dressage e Para-Dressage).
Passavam já poucos minutos das 10h quando Daniel Pinto iniciou a apresentação da Coudelaria de Sylvan Massa que, por razões familiares, não pode estar presente.
A apresentação começou descrevendo como a coudelaria se iniciou há 25 anos atràs, fruto da sabedoria e orientação do Dr. Guilherme Borba. 25 Anos passados e fruto de um querer muito grande e de uma visão inovadora do seu proprietário, a éguada está colocada nas melhores pastagens do sul de França, onde os seus animais são monitorizados a partir da concepção.
Aos 6 meses o trabalho de equipa com veterinários e ferradores começa a tomar lugar, e os aprumos são corrigidos de modo a permitir o melhor desenvolvimento dos membros e das formas. Este trabalho tem lugar em França até aos 3 anos, altura onde os animais selecionados pela equipa, vêm até Portugal, para a Academia, onde começarão a ser testados.
A Coudelaria Massa dedica-se também à criação de cavalos cruzados, utilizando éguas Lusitanas e com garanhões Warmblood, não só com o intuito de marketing, mas também para galvanizar e potenciar a presença do cavalo lusitano no panorama internacional do desporto.
A segunda intervenção coube ao Dr. Manuel José Damásio que apresentou modelos estratégicos, planos e soluções de marketing aplicadas ao produto cavalar.
Destacando as fraquezas, as ameaças iminentes e parcerias que trarão uma maior sustentabilidade ao mercado, Manuel Damásio conclui que o “produto” existe, mas terá que ser trabalhado de forma a tornar-se mais atractivo, destacando que é urgente estimular a parceria com actividades complementares, nomeadamente o turismo.
Seguidamente, o Dr. Bruno Caseirão, elaborou uma retrospectiva histórica da equitação clássica e académica em Portugal e a sua tradição. Nesta retrospectiva recuámos até ao ano de 1143 onde surgem os primeiros registos da criação do cavalo lusitano, que já nessa altura era seleccionado pela sua endurance e funcionalidade, levando a que na idade medieval já se escolhessem cavalos pela sua beleza, e tendo em conta a sua genealogia.
Em 1434, é o Rei D. Duarte que faz surgir a prima obra literária dedicada à equitação – “Ensinança de bem cavalgar em toda a Sela”
Em 1640 o Rei D. João IV, formulou uma lei para que todos os demais que tivessem posses criassem cavalos.
Conceitos como Gineta, Estardiota e Brida, surgem nesta altura que se referem aos diferentes tipos de monte, de estribos curtos, sem estribos ou de estribos muito compridos, sendo que esta última é mais característica no norte da Europa.
Nesta Altura é então publicado um livro por Pedro Galego o “Tratado de Gineta” e seguidamente, um outro, por António Galvão de Andrade intitulado como “Arte de Cavalaria de Gineta e Estardiota & Bom Primor de Ferrar & Alveitaria”, datados de 1678.
“Luz da Liberal e Nobre Arte da Cavalaria” foi o último grande tratado de equitação, escrito por Manoel Carlos de Andrade em 1790, no entanto o último livro a ser publicado no séc. XVIII foi a “Arte Marialva”. A invasão napoleónica foi em seguida responsável pela decadência desta arte até ao séc. XX, onde Mestre Miranda, último mestre equitador da Família Real teve um papel fundamental. Mestre Miranda era conhecedor de toda a arte contemporânea e de todas as figuras do seu tempo, tais como: James Fillis, Newcastle, La Gérinière e Baucher.
Mais tarde, foi professor de Nuno Oliveira ao qual todos reconhecemos grande mérito, não só pela promoção da equitação através dos alunos que ensinou e que fizeram perpetuar toda uma história de raízes profundas, e donde se destacam: D. Diogo de Bragança, Miguel Távora, D. José de Athayde e Dr. Guilherme Borba, este último, figura pelo seu conhecimento e obra e como criador de duas academias, a Escola de Jerez de la Frontera e a Escola Portuguesa de Arte Equestre.
A apresentação terminou com um Agradecimento ao Dr. Guilherme Borba pelo seu grande contributo para a equitação e conhecimento equestre.
Finda esta apresentação, o painel de discussão retirou-se para aferir as conclusões deste 1º Fórum, os participantes continuaram atentos para seguir com expectativa a apresentação de Carlos Lopes, seleccionador nacional e de Filomena Albano, presidente da Associação Portuguesa de Dressage, que se debruçou sobre a Dressage em Portugal, a sua evolução histórica, o estado actual e planos de futuro.
Aos leitores importa ficar com os seguintes dados:
Portugal é um dos poucos paises com medalhas em dressage nos Jogos Olimpicos, datando este registo de 1948, sendo que foi por equipas nos JO de Londres que obtivemos a medala de bronze.
Na altura a equitação desportiva era maioritariamente militar, no entanto, as verbas para o desporto militar foram diminuído e rapidamente o panorama se inverteu.
Actualmente, fruto de um trabalho que tem vindo a ser desenvolvido, temos cerca de 30 concursos por ano e o número de atletas tem vindo a crescer de uma forma exponencial. Em 2007 eram cerca de 200 e hoje encontram-se inscritos mais de 400. Tudo isto resulta de um trabalho concertado ente praticantes, pais, criadores, treinadores, juízes e organizações.
Neste sentido, Filomena Albano apresentou um projecto para o próximo triénio, fazendo um balanço do mandato anterior da direcção da APD, afirmando que actualmente temos a nosso favor as presenças nos últimos maiores eventos equestres: Jogos Equestres Mundiais, aTaça Do Mundo em Las Vegas, o Campeonato da Europa, os Jogos Olímpicos dePequim, o Campeonato da Europa de Juniores e Jovens Cavaleiros.
No entanto, temos de caminhar todos na mesma direcção e apostar na formação de Cavaleiros, Juízes, Treinadores. Para isso a APD em parceria com a Academia de Dressage Portugal, a FEP e a ARDEA irá desenvolver acções de formação destinadas aos vários intervenientes na modalidade.
Importa referir que foi apresentado um processo de selecção dos conjuntos de Nível Internacional, ou seja, os 8 primeiros classificados de cada ranking estão automaticamente seleccionados para serem acompanhados por Kyra Kyrklund para o nível de SJ, GP, JUN/YR e por Mariette Withages ao nível dos cavalos novos de 4,5 e 6 anos.
Terminadas as apresentação, após um coffee-break, o painel de discussão composto por Maritte Withages, Hillary Clayton, Paulo Caetano e João Pedro Rodrigues regressou com as seguintes conclusões:
1º |Todas as entidades e demais pessoas reconhecem o interesse da importância da Criação do Cavalo Lusitano para a Dressage;
2º |Apesar de a Raça Lusitana conter um studbook fechado, este contém a diverssidade genética que permite criar cavalos com potencial para a Dressage;
3º|A solidez e a saúde do Cavalo Lusitano são excelentes, contudo, terão de ser constantemente vigiadas;
4º | A comunicação entre as partes envolvidas, APSL, FAR, Criadores, Proprietários, Cavaleiros e Treinadores e as organizações nacionais deve de ser melhorada;
5º | O Fórum permitiu ter conhecimento de métodos correctos e sistemáticos de treino, quer isto dizer, seguir a Escala de Treino Básica. Esta linha de raciocínio irá permitir mostrar todo o potencial que o Cavalo Lusitano tem para a Dressage.
Conhecidas as conclusões, a Dressage Portugal indagou algumas individualidades presentes no público sobre a importância deste evento e respectivas conclusões:
Francisco Cancella de Abreu afirma que este evento correu da melhor maneira, embora lamente o facto da falta de presença dos criadores, pois aqueles que estiveram presentes estão bem informados e não são aqueles que mais poderiam beneficiar com estes conhecimentos.”Este evento serve para nos ajudar a melhorar o produto – cavalo Lusitano. (…) o mercado da criação cavalar é uma indústria e tem de ser encarada como tal. Por isso é que em Portugal as comissões são de 500€ e lá fora são de 50 000€. A criação cavalar tem de ser parametrizada para que haja informações precisas sobre os garanhões e éguas. Tem de existir um modelo onde os animais sejam testados para as diferentes valências, de modo a que o criador possa orientar os seus produtos consoante o seu objectivo. Já por diversas vezes o referi mas nunca foi aceite, mas é assim que se faz lá fora, e o passo seguinte seria fornecer as informações sobre as características transmitidas pelos progenitores, essa será ou seria a função da APSL e da FAR. Se assim não for,estarão a obstruir o futuro e o desenvolvimento da raça.”
Miguel Távora evidenciou a sua felicidade de, pela primeira vez, ver reunidas todas as entidades para discutir um problema tão sério como a criação do nosso cavalo. Veterinários, cientistas, criadores, juízes internacionais, cavaleiros e jornalistas, juntaram-se para tentar chegar a uma conclusão. Conclusão essa, que é seguir a equitação clássica, académica.
“Não perdemos nada com a nossa tradição, antes pelo contrário, e ainda podemos juntar a tudo isto a equitação de desporto – a Dressage. Alguns criadores já se encontram no caminho certo e aqueles que ainda não estão, rapidamente serão arrastados, pois o mercado cada vez é mais exigente com todos os que vendem cavalos.”
Mariette Withages afirma que este fórum foi um grande sucesso dado a representação de diversos criadores estrangeiros, nomeadamente: Luxemburgo, Bélgica, França, EUA, África do Sul, Brasil e Espanha. “ Tenho pena de ter visto tão poucos criadores portugueses. O Programa foi intenso mas bastante diversificado e a parte científica foi excepcional com entidades de renome a nível internacional, discutiram-se problemas essenciais pelo que foi um Fórum de nível internacional.”
“As conclusões foram curtas mas bastante precisas. Algumas pessoas estão a tomar um bom caminho, no entanto, é necessário que todos os outros reflictam também e que a informação aqui tratada seja divulgada e aplicada. Se assim não for, este excelente fórum não serviu para nada.”
Carlos Lopes sublinha que o passo mais difícil é passar dos projectos aos acontecimentos em si, do papel ao facto: “ao fim dos três dias não podemos estar mais satisfeitos, uma vez que este acontecimento irá ficar na história. Fomos capazes de nos sentar todos a discutir um problema comum com pessoas de diferentes origens, com diferentes maneiras de ver as coisas, mas pessoas que comungam do mesmo ideal que é melhorar o nosso cavalo com vista ao ensino.
Tudo isto tem sido extremamente difícil, uma vez que todos trabalham para si e não para os outros. Sentar à mesa: a APSl, a FEP, os criadores, os cavaleiros, juízes e treinadores era algo impensável ,mas nós fomos capazes, logo não podia estar mais satisfeito. Todo o feedback recebido dos participantes, nomeadamente dos estrangeiros, só nos pode deixar orgulhosos.
Carlos Lopes termina, fazendo votos para que este encontro venha a tornar-se um evento anual, em que todos se possam voltar a juntar para debater este tema no mês de Outubro, que já foi escolhido como o mês dos Fóruns.















