Fórum Internacional do Lusitano na Dressage | 2º dia
2009-11-01 11:03 amO 2º dia do Fórum apresentou um bom equilíbrio entre apresentações teóricas e práticas por oradores nacionais e estrangeiros, que tiveram o seu ponto mais alto com a exposição efectuada por Kyra Kyrklund, apoiada em imagens do treino do cavalo Rico, e do cavalo Tálio, montado ao vivo por Daniel Pinto. A possibilidade de assistir à apresentação de várias coudelarias nacionais e estrangeiras que se dedicam à criação e selecção de cavalos para o ensino, bem como conhecer os seus métodos de selecção e produtos, foi igualmente um momento de particular interesse.
por: Camila Rodrigues, para a Dressage Portugal
O segundo dia do Primeiro Forum Internacional de Dressage para o Cavalo Lusitano teve início com uma apresentação sobre tecnologias reprodutivas em equinos, pelo Dr. Miguel Bibernicht. O veterinário que focou as especificidades reprodutivas dos equinos e os diversos métodos reprodutivos utilizados, tanto naturais como artificiais, realçando as respectivas vantagens e desvantagens. Relativamente à transferência de embriões, Miguel Bibernicht salientou a necessidade de manter o nível qualidade das éguas receptoras, dado que éguas velhas com problemas reprodutivos, apesar de menos dispendiosas, não são as mais indicadas para desempenhar este papel. O ideal será encontar um equilíbrio entre qualidade e custo, sem sacrificar a primeira em prol do segundo, que permita a utilização de éguas saudáveis, entre os 4 e os 12 anos, de fácil manuzeamento e com um comportamento maternal adequado.
Seguidamente, Luís Veiga, Director do departamento de produção alimentar da Intacol, na sua apresentação sobre a alimentação mais adequada para o cavalo de dressage, começou por referir brevemente o historial da marca, dando particular atenção à sua parceria com o Kentucky Equine Research, centro de pesquisa e desenvolvimento que se situa na vanguarda da alimentação equina. Esta abordagem científica distancia-se da abordagem artesanal que ainda impera no nosso país, onde as rações são elaboradas sem condições adequadas. Na sua perspectiva, uma abordagem de carácter mais científico não limita o potencial genético e desportivo do cavalo, antes pelo contrário, reforça-o. Referindo-se em concreto às necessidades do cavalo de dressage, que requere resistência, flexibilidade, impulsão e força, Luís Veiga refere que não há uma receita para os campeões, existem sim regras essenciais que devem ser respeitadas, tais como o respeito pelo comportamento alimentar natural dos equinos, a garantia da qualidade dos ingredientes e da água, e a verificação regular do equilíbrio nutricional do cavalo.
Seguiram-se as apresentações de duas coudelarias com resultados comprovados ao nível da dressage, a Casa Cadaval e a Coudelaria de Santa Margarida.
Na última década, a Casa Cadaval tem procurado seleccionar animais atléticos, com boas características tanto a nível de conformação como de andamentos. A estas características físicas é essencial aliar um bom temperamento, que facilite tanto a montabilidade como o maneio, e a durabilidade, dado que o cavalo é um animal que deve manter-se funcional por longo tempo. O objectivo final consiste na selecção das linhagens mais adequadas, ou seja, aquelas que reunem as características enunciadas. Para seleccionar animais com o perfil desejável os produtos da casa, tanto os machos como as fémeas, são testados de forma rigorosa, e foi estabelecida uma colaboração com a Universidade dos Açores, no sentido de estudar e aprofundar os conhecimentos sobre a raça. Só este conhecimento permitirá aos criadores decidir com um maior grau de certeza, no que se refere a selecção dos seus produtos.
A Coudelaria de Santa Margarida tem assumido como principal preocupação a conformação atlética dos seus produtos. Até ao momento, a força ao nível dos membros tem sido a maior dificuldade encontrada, sendo que foram já alcançados resultados positivos a este nível. Os principais garanhões utilizados até ao momento enriqueceram as linhagens presentes na coudelaria com as suas qualidades específicas. O garanhão fundador, Riscado (Ortigão Costa), contribuiu com força e tamanho, o garanhão Universo (Manuel Veiga) trouxe tipicidade e o garanhão Opus 72 (Manuel Veiga) acrescentou inteligência e grande capacidade de aprendizagem. Actualmente, o garanhão Spartacus, do ferro da casa, contribui com as características necessárias para o cavalo de dressage, tanto ao nível de conformação, como de temperamento e andamentos. Como resultado, têm sido produzidos bons cavalos de dressage, sem que se tenha perdido a tipicidade da raça.
Um dos pontos altos do dia foi a apresentação efectuada pela cavaleira finlandesa Kyra Kyrklund que enriqueceu a sua apresentação sobre o treino de dressage ao nível internacional para o Grande Prémio, com vídeos de treinos e provas que efectuou com o lusitano Rico (Borba). Kyra referiu o seu contacto recente com o cavalo lusitano, que considera ser um cavalo colaborante, sensível, fino às ajudas e agradável de montar. É um cavalo que não exige uma grande força física por parte do cavaleiro, o que o torna particularmente adequado às cavaleiras que sentem dificuldades em montar wormbloods mais pesados e menos sensíveis. No entanto, dada a sua finura, é um cavalo que necessita de uma gestão cuidada do nível de pressão que lhe é exigida por parte do cavaleiro, por forma a não aumentar excessivamente a adrenalina.
Relativamente ao treino do cavalo de dressage, Kyra salientou que cada cavalo tem o seu próprio ritmo de aprendizagem e apresenta mais facilidade em determinados exercícios. Na sua opinião, o cavaleiro deve aproveitar a facilidade que o cavalo apresenta em áreas específicas e permitir que ele evolua nesses exercícios, sendo que a evolução nos exercícios restantes se fará posteriormente, de forma natural, à medida que o cavalo for desenvolvendo maior massa muscular e maturidade. Num primeiro momento, é fundamental que o cavalo compreenda o que se pretende dele. A partir desse momento, será então possível começar a trabalhar gradualmente o aperfeiçoamento da execução dos exercícios. No decorrer do processo de aprendizagem é possível que o cavalo não consiga aprender por um determinado método, pelo que é fundamental dispôr de ferramentas alternativas que permitam uma outra abordagem. Quanto mais ferramentas o cavaleiro tiver ao seu dispôr, mais versátil se torna e mais se pode adequar às necessidades específicas de cada cavalo.
Kyra salienta que a compreensão e conhecimento do cavalo pelo seu cavaleiro é um elemento fundamental, na medida em que permite prever o seu comportamento e saber até onde se pode ir em cada momento. No que se refere a Rico, Kira Kyrklund considera que por ser lusitano não exige mais trabalho. Na sua opinião cada cavalo tem a sua qualidade, independentemente da sua raça.
Numa abordagem mais prática, o cavaleiro internacional português Daniel Pinto montou Tálio (Ortigão Costa) e fez uma demonstração de uma sessão de trabalho completa, dado que frequentemente assistimos unicamente às provas e aos breves momentos que as antecedem e perdemos esta fase inicial e fundamental do processo de preparação do cavalo. Na sua apresentação, Daniel Pinto revelou identificar-se em grande medida com a abordagem de Kyra, e ambos comentaram o aquecimento e o trabalho de Tálio, à medida que ia decorrendo.
Foi realçada a importância do aquecimento e de não inicar o trabalho com exercícios demasiado complicados, bem como a necessidade de aprender a interpretar o estado de espírito do cavalo, de forma a tentar colocá-lo na melhor disposição possível. Segundo Daniel Pinto, a dressage deve ser praticada no presente e cada dia é necessário começar de novo, sem trazer os problemas do passado.
A tarde iniciou-se com uma apresentação do Professor Artur Machado, da Universidade dos Açores, que se centrou na análise dos bons e maus genes no cavalo lusitano. O Professor focou a sua apresentação essencialmente em estudos que efectuou sobre a prevalência da doença da navicular e da osteocondrose. Referindo-se às características genéticas do cavalo lusitano, Artur Machado revelou que esta é uma raça muito antiga, que no passado sofreu a influência de outras raças. Estes factos são provavelmente os responsáveis pela grande diversidade genética existente dentro da raça, que permite obter uma variedade significativa. Esta mais valia deve no entanto ser gerida de forma correcta, para que não se desperdice a vantagem que pode representar para a criação da raça.
Artur Machado referiu que o cruzamento de dois animais muito diferentes geneticamente pode dar resultados positivos nas primeiras descendências, mas que um determinado nível de inbreeding acaba por ser necessário para fixar determinadas características. No entanto, esta abordagem tem que ser utilizada com muito cuidado, dado que favorece igualmente a fixação de características negativas.
Seguiu-se uma apresentação pelo treinador Francisco Cancella de Abreu e Mariette Whitages, juíza internacional de ensino, sobre os sistemas modernos de avaliação na criação do cavalo lusitano, ao nível da herditariedade. Referindo-se à metodologia utilizada na Herdade das Figueiras, Francisco Cancela de Abreu referiu que a prioridade fundamental reside no desempenho dos cavalos, sendo a qualidade dos seus movimentos o elemento fundamental na selecção, dado que este factor tem uma componente hereditária bastante forte (13% mais forte do que na conformação).
De maneira a efectuar uma correcta selecção dos cavalos, foram definidos instrumentos de avaliação genética que consistem essencialmente numa avaliação em diversos parâmetros até aos 3 anos, na descrição exaustiva de cada animal após os 3 anos e na realização de testes de performance em diversas modalidades, como a dressage, os obstáculos e a atrelagem. Esta abordagem permite excluir os produtos de má qualidade, evita reforçar as fraquezas, facilita a identificação das prioridades, permite definir as tendências de hereditariedade dos garanhões e das éguas, e facilita a previsão da qualidade média da descendência.
A apresentação foi complementada com uma demonstração prática onde foi verificada a transmissão de características à descendência, a qual envolveu diversos cavalos, como Startacus e o seu filho Água-Viva (Coudelaria de Santa Margarida), Tálio e o seu filho Beto (Ortigão Costa), e as éguas Altiva e Jandaia (Herdade das Figueiras), filhas de Quixote.
As perspectivas da criação do lusitano ao nível mundial contaram com apresentações de 3 criadores, Eduardo Fischer do Haras Villa do Retiro, Enrique Guerrero da Yeguada La Lyra Y la W e Manuela Tavares de Almeida, da Coudelaria Rocas do Vouga. Eduardo Fischer apelou à união dos criadores em função de objectivos comuns, o que na sua opinião constitui um passo essencial na ascenção do cavalo lusitano aos pódios da dressage internacional.
O dia terminou com uma interessante apresentação dos produtos da coudelaria Massa, França.










