Conversa com o Dr. Filipe Figueiredo (Graciosa) a propósito dos 30 anos da Escola Portuguesa de Arte Equestre
O passado, o presente e o futuro da EPAE vistos pelo seu Director e cavaleiro fundador.
DP – Que balanço faz dos 30 anos de existência da EPAE?
FG – Um dos grandes sucessos da Escola ao longo dos últimos 30 anos, foi o papel que desempenhou na testagem dos cavalos de Alter Real, seleccionando os garanhões e influenciando a política de emparelhamentos, o que se traduziu numa evolução muito positiva para os produtos da coudelaria.
A elevada consanguinidade, por parte dos produtos da coudelaria de Alter, traduzia-se nalguma debilidade física e numa falta de estrutura e capacidade articular e muscular para os cavalos aguentarem os exercícios que lhes eram exigidos, debilidades que se traduziam no seu temperamento e que chegou até a dar mau nome aos cavalos da coudelaria de Alter, o que no fundo não corresponde à verdade.
Em Portugal, à excepção da Coudelaria Nacional e da Palha Blanco, todas as coudelarias têm bastante sangue Alter. Existem algumas coudelarias que se tentam afastar dessa realidade, mas até nas coudelarias mais recentes se recuarmos até à terceira geração, apresentam normalmente sangue AR.
A Escola tem tido um peso enorme a nível nacional e internacional, tendo conseguido afirmar-se no público que aprecia a nossa equitação tradicional, retratada no livro de Manoel Carlos de Andrade. A essa quitação foram adicionados alguns exercícios, como é o caso das passagens de mão aproximadas, exercício desenvolvido por Baucher, que chegaram à equitação portuguesa através do mestre Nuno Oliveira, que fez uma conjugação da escola mais antiga com esses métodos mais modernos. Essa equitação, encontra-se muito adaptada ao nosso tipo de cavalo.
Umas das maiores dificuldades da equitação académica é o tipo de cavalo com que a praticam. Exemplos disso são os cavalos utilizados pela Escola de Saumur, que pelas suas características não são naturalmente adaptados para esse tipo de equitação.
É com satisfação que saliento os contactos feitos com as outras academias, como a escola de Vienna, onde três cavaleiros da EPAE estagiaram, nomeadamente eu próprio em 1983, e a escola de Saumur. Um intercâmbio que já vai na terceira edição.
A colaboração entre a EPAE e a Escola de Saumur tem sido estreita, tendo sido as duas primeiras escolas a se apresentarem em conjunto, nomeadamente no Printemps des Écuyers, apresentação que este ano vamos novamente repetir no próximo mês.
Actualmente as relações entre as quatro principais escolas mundiais são óptimas. No caso da Real Escola Andaluza de Arte Equestre, tanto eu como o seu director trabalhámos juntos desde o início; grande parte dos seus principais cavaleiros foram meus alunos e do Dr. Guilherme Borba (ex-director da EPAE) e muitos dos cavalos utilizados na sua fundação foram Lusitanos ensinados cá em Portugal.
A Gala realizada por ocasião dos 25 anos da EPAE, no Pavilhão Atlântico em Lisboa, foi um sucesso enorme. Recentemente o Espectáculo das Quatro Escolas, que teve lugar no Pavilhão de Bercy em Paris, esgotou em três noites consecutivas, em ambiente de apoteose com um público rendido à beleza da arte equestre. Foi um momento impressionante a nível de equitação académica e de convívio entre diferentes culturas e mostrámos ao mundo que somos uma escola cuja equitação ombreia com as suas congéneres, ainda que não exista uma competição desenfreada entre elas.
DP – Uma vez realizado o seu grande objectivo de longa data da apresentação conjunta das 4 grandes escolas equestres mundiais, quais são actualmente as suas principais ambições para a Escola?
FG – Neste momento a crise económica também nos afecta de algum modo, ao vermos canceladas algumas apresentações que já tínhamos calendarizadas. Mas espero preparar alguns eventos de maior dimensão ainda para este ano, nomeadamente por ocasião do Festival Internacional do Cavalo Lusitano.
A par disso continuamos com a expectativa da transferência para as novas instalações. Depois das vicissitudes vividas ao longo destes 30 anos, está programada a instalação definitiva no espaço do actual quartel de Cavalaria 7, junto a Belém. O projecto está bastante adiantado e em apreciação na Câmara Municipal de Lisboa. Será um picadeiro muito bonito e tal como está projectado, ficará bastante bom. A sua inauguração para 2010 associada à comemoração do centenário da instauração da República.
A zona de Belém é uma zona nobre da cidade, muito visitada pelos turistas, beneficiando da localização junto ao Tejo e da presença de vários monumentos, o que permitirá aumentar a visibilidade da Escola bem como o número de espectadores e visitantes.
Os cavalos de Alter são cada vez melhor, nós temos vontade de trabalhar, assim nos dêem as condições.
Num futuro próximo prevê-se que a EPAE reforce as suas funções académicas assumindo a função de formadora, como pólo da Escola Nacional de Equitação na disciplina de Equitação de Tradição Portuguesa, recentemente federada, cujos níveis se equiparam às várias categorias existentes no quadro da Escola.
Actualmente a EPAE está ligada através de protocolos a várias escolas ligadas à equitação e maneio equestre, nomeadamente a Escola Profissional de Desenvolvimento Rural de Alter do Chão e de Abrantes, a Escola Superior Agrária de Coimbra e a Escola Agrícola D. Dinis.
Os cavaleiros formados pela EPAE terão acesso a uma qualificação profissional, equiparada às categorias actualmente existentes em Portugal, (p.ex: ajudante de monitor, monitor, instrutor, etc) tanto a nível nacional, como internacionalmente, pois, por vezes, nomeadamente nos Estados Unidos, já tem havido problemas com certificação profissional de alguns cavaleiros que lá vão ensinar.
Queluz, 02 de Abril de 2009










