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Memórias de antigos cavaleiros

A DP pediu a antigos cavaleiros que partilhassem algumas memórias, bem como as suas visões do presente e futuro da Escola. O mestre Luís Valença, e os cavaleiro Carlos Pinto, Daniel Pinto, Miguel Ralão, Pedro Torres e Jorge Pereira, foram os cavaleiros inquiridos que aceitaram este repto.

 

É unânime que a passagem pela EPAE deixou marcas no seu percurso como cavaleiros, principalmente naqueles que a integraram muito jovens, no inicio da sua carreira equestre, ainda que os períodos de permanência tenham sido mais ou menos longos. As sólidas bases técnicas aprendidas nas aulas com o Dr. Guilherme Borba foram referenciadas de forma recorrente por vários cavaleiros, como é o caso de Daniel Pinto que refere: “O Dr. Guilherme Borba foi uma pessoa que muito influenciou a minha abordagem à equitação e que abordou comigo a equitação de uma forma mais técnica, mostrando que esse é o caminho para alcançar resultados”. Esta opinião é partilhada por Carlos Pinto: “O Director, Dr. Guilherme Borba, grande cavaleiro dotado de grande conhecimento técnico, ensinou-me as bases da equitação e o respeito pelo cavalo, coisas que estão sempre presentes em quem ensina cavalos”. Por sua vez, Miguel Ralão salienta que “não são poucas as vezes que me deparo, perante uma situação, a pensar que conselho é que o Dr. Guilherme Borba me daria”.

A informalidade e ambiente de convívio, camaradagem e entreajuda que marcaram os primeiros anos da Escola são, da mesma forma, recordados como um dos factores mais marcantes desses tempos aqui recordados por Luís Valença – ” a Escola sofreu muito na sua primeira fase, mas com grande orgulho dos seus cavaleiros. Nos primeiros 7/8 anos da Escola, foi como pegar num bebé prematuro, com muita dificuldade, e conseguir levá-lo, em pouco tempo, a ser feliz. Nessa altura todos trabalhavam sem ganhar. Estavam lá por amor ao cavalo e para fazer nascer qualquer coisa. Nos anos em que estivemos no Jockey Club, cada um tinha o seu cavalo e tínhamos o picadeiro do Jockey dispensado apenas das 20 à meia noite. Portanto, no fim de um dia cansativo, o João Pedro Rodrigues vinha de Cascais, eu ia de Vila Franca, outros viviam mais perto, e no fim de um dia de trabalho fazíamos aquilo com um gosto e um entusiasmo extraordinário /…/ era um grupo de amadores apaixonados.”

ralao-cabriola“Foi uma experiência fantástica, onde aprendi as bases da equitação e onde tudo era feito na base de muita boa vontade e carolice”, refere Jorge Pereira, enquanto Pedro Torres recorda “os primeiros dias, muito nervoso e com alguns receios de não estar à altura de pertencer à elite de cavaleiros da escola”. A pertença à Escola “dava-nos uma grande sensação de prestígio”, salienta Daniel Pinto, que também realça a importância da EPAE como entidade formadora “pois mantém o ensino não só dos exercícios utilizados em competição mas também os ares altos que fazem parte do ensino completo do cavalo. É uma escola que pratica uma equitação actual, e que tem cavaleiros em competição”, bem como “três ex-cavaleiros com importantes carreiras internacionais e de nível Olímpico”. Na sua opinião a Escola poderia fazer um maior uso deste facto para reforçar a sua importância e visibilidade internacionalmente.

A compatibilidade entre a equitação clássica e a desportiva foi igualmente referida por Luís Valença, que nos transmitiu uma visão muito particular sobre este tema – “A Escola diferencia-se do resto do ensino pelo seguinte: a Escola representa o mundo da arte. E a arte tem que ser vivida. Como dizia o mestre Nuno, montar a cavalo tem que ser do coração, do coração ao cérebro, e só depois é que há mãos e pernas. Portanto, a Escola tem que ser criadora de cavaleiros que vivam a arte equestre. A Escola tem que ser um núcleo de arte viva. As pessoas têm que ser apaixonadas não só pela equitação, mas pela leitura, pela poesia, pela música, e todo esse conjunto é que forma o cavaleiro. Por vezes o mestre Nuno estava a montar a cavalo e a chorar. E depois em conversa dizia “o cavalo deu-me isto, com a música, e deu-me um sentimento…, e isto é que é o sentimento da arte equestre”.

A importância da Escola na promoção da equitação portuguesa e do cavalo lusitano, é igualmente reconhecida por todos os entrevistados, uma função que desejam ver reforçada a par da sua missão na testagem e melhoria dos cavalos Alter Real.

Todos os cavaleiros fazem votos para que a Escola continue e, como diz Carlos Pinto “continue a evoluir em termos da qualidade técnica e dos cavalos”. Para o futuro, Miguel Ralão gostaria ainda “que a EPAE assumisse um papel mais importante quer na formação de cavaleiros como uma verdadeira Academia, quer no ensino e testagem de cavalos, não só para a Escola, mas utilizando o valor da opinião dos seus cavaleiros como uma mais-valia para o Lusitano num sentido mais lato, e assim prestar um serviço mais à selecção e melhoramento do efectivo”

Luís Valença salienta a importância que teria para a Escola a sua instalação na sede programada para Belém. “A Escola tem vivido em espaços emprestados, sem condições nenhumas, tem sobrevivido, digamos assim. Agora está um pouco melhor, porque já tem sítio para os cavalos, tem um picadeiro em que a água é drenada, mas tem sido uma caminhada muito difícil. Eu julgo que agora as promessas que têm sido feitas vão ser cumpridas e que em 2010 estaremos instalados na sede meritória do cavalo. Porque os grandes protagonistas não são os cavaleiros, são os cavalos. Os cavalos é que nos dão a beleza da sua arte. Os cavalos é que nos vão dar o motivo de tudo isto existir. Cavaleiros haverá muitos. Melhor ou pior, são a segunda peça do conjunto cavalo/cavaleiro. É ao cavalo que temos que dignificar, assim que haja a sede, que vai existir, se Deus quiser, na Calçada da Ajuda. Dizem que em Outubro de 2010 vai ser inaugurada, porque então se cumprem os 100 anos da República e será algo que tem raízes monárquicas que irá fazer a festa da República. Mais uma vez o cavalo teve esse valor, de se sobrepor à política. Veja-se o valor que o cavalo tem na existência do homem! Eu penso que quando a Escola tiver a sua sede será possível formar não cavaleiros, mas gente que tenha sentimento, que viva essa cultura.

A DP agradece aos cavaleiros que aceitaram colaborar para este artigo.