O melhor da Arte Equestre passou por Lisboa
2011-11-07 10:35 pmLisboa teve o prazer de receber três das melhores academias equestres mundiais originárias de Portugal, Espanha e França, que se apresentaram em conjunto num espectáculo no qual executaram os exercícios que melhor representam a sua arte e técnica equestre. O público esgotou os 7000 lugares da praça do Campo Pequeno, para uma única noite de gala que reuniu a Escola Portuguesa de Arte Equestre, a Real Escuela Andaluza de Arte Ecuestre e o Cadre Noir de Saumur. Este feito tinha já acontecido em 2004 no pavilhão atlântico em Lisboa, por altura da comemoração dos 25 anos da Escola Portuguesa de Arte Equestre e em 2007, no pavilhão de Bercy em Paris, onde a estas 3 escolas se juntou a Escola de Viena e o espectáculo se repetiu por 3 noites consecutivas. A Dressage Portugal assistiu ao ensaio geral e ao espectáculo e conversou com os directores das 3 escolas que explicaram em detalhe a apresentação de cada escola e da sua vontade de união sob a linguagem comum da arte equestre.
Texto e fotografias por: Ana Escoval
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Ao entrar nos bastidores desta gala, ao invés de glamorosos camarins, encontro toda uma instalação equestre montada no mínimo espaço mas preparada para acomodar temporariamente de maneira confortável e eficiente os artistas que tomam parte na gala: os cavalos, os cavaleiros e ainda as suas equipas de tratadores e entrançadores que não só zelam pelo bem estar das montadas como permitem que elas se apresentem no seu máximo esplendor .
Enquanto os cavalos aguardam a sua vez de ser aparelhados ou de entrar na arena para o ensaio, os cavaleiros confraternizam entre si e para o espectador transparece um ambiente de cumplicidade, sem nervosismo mas com a responsabilidade e vontade de “bem fazer” própria de quem escolheu a a arte equestre como forma de vida.
A música do espectáculo em fundo, o barulho dos cascos e o resfolegar impaciente dos cavalos, as conversas em português , espanhol e francês por vezes uma mistura das três, são a banda sonora desta acção que se desenrola nas traseiras da histórica praça do Campo Pequeno e no corredor de acesso à porta dos cavaleiros por onde se faz o acesso à arena.
As estrelas desta noite chegam-nos de Lisboa, sede da Escola de Portuguesa de Arte Equestre, de Jerez de La Frontera, em Espanha, casa da Real Escuela Andaluza de Arte Ecuestre, intimamente ligada à escola portuguesa desde a sua fundação, e de Saumur, em França, onde nas vastas instalações da École Nationale d’Equitation se aloja o Cadre Noir.
Actualmente estas três escolas são consideradas como as melhores academias equestres do mundo, a par com a Escola Espanhola de Viena de Áustria. São academias que desde a fundação se regem por príncipios teóricos e técnicos na prática da sua equitação, embora cada uma tenha especificidades individuais, que interessa conhecer para percebermos o porquê dos exercícios e trajes que cada uma apresenta durante o espectáculo.
A Escola portuguesa está actualmente sedeada no Palácio de Queluz, onde treina e se apresenta ao público montando os cavalos Puro Sangue Lusitano de ferro Alter Real, que se destacam pela sua pelagem castanha e funcionalidade. Ao longo dos 32 anos de existência, a Escola tem tido um importante papel na selecção e melhoramento do cavalo Alter Real com impacto também nos seus resultados desportivos. Conta actualmente com o conjunto que ocupa o melhor lugar de sempre para Portugal no ranking da Federação Equestre Internacional para a modalidade de Dressage – Gonçalo Carvalho e Rubi, que se apresentaram a solo nesta gala, um dos números que se destina aos cavalos e cavaleiros que atingem os níveis máximos de ensino.
O Cadre Noir, fundado no final do século XIX, é por sua vez composto pelos cavaleiros – “écuyers” – mestres da Escola Nacional de Equitação francesa , cuja missão é o estudo, desenvolvimento e transmissão dos conhecimentos equestres para a evolução da equitação em França. Para além da função de divulgação da equitação francesa, no seu país e no mundo, através de apresentações públicas, o Cadre Noir também desenvolve actividades na competição desportiva ao mais alto nível nas modalidades equestres, utilizando para isso cavalos inscritos no stud-book “Selle Français”.
A Real Escuela Andaluza de Arte Ecuestre, deve a sua fundação a D. Alvaro Domecq Romero em estreita colaboração com os fundadores da Escola Portuguesa de Arte Equestre, nomeadamente o do seu actual director Dr. Filipe Graciosa, no inicio da década de 1980. Entre as suas atribuições está a divulgação do património equestre espanhol e a testagem e melhoramento do cavalo de Pura Raça Espanhola.
Antes do espectáculo, os representantes máximos de cada Escola dão uma ideia do que cada uma irá apresentar, bem como dos meios envolvidos e de algumas das particularidades de cada uma delas.
Filipe Figueiredo (Graciosa), director da Escola Portuguesa de Arte Equestre, é o anfitrião deste espectáculo e reconhece que o facto de liderar uma das melhores escolas equestres do mundo “é o reconhecimento do nosso trabalho e é uma responsabilidade com que a Escola lida com naturalidade!”; acrescenta ainda que “a ideia inicial de apresentar as escolas em conjunto partiu de Queluz com o anterior director”. Daqui resultaram as primeiras apresentações com o Cadre Noir, incluindo posteriormente a Real Escuela, e culminando em 2007 com a apresentação das 4 escolas, que incluíu também a Escola Espanhola de Viena.
Praticamente em casa, a Escola Portuguesa de Arte Equestre contou com a presença de todos os seus cavaleiros e principais cavalos, 17 cavalos ao todo e ainda 3 éguas chegadas directamente da Coudelaria em Alter do Chão, duas delas afilhadas que irão também integrar este espectáculo apresentadas à mão. No entanto Filipe Graciosa reconhece que actualmente “tem havido algumas dificuldades por não nos terem distribuido os cavalos ao nível e em número como é costume”. É de relembrar que a Escola Portuguesa faz parte da Fundação Alter Real e todos os anos recebe novos cavalos de ferro alter real para testagem e renovação das suas montadas. “Actualmente estamos com 48 porque não nos têm sido desponibilizados novos cavalos, e quando nos são disponibilizados já vêm escolhidos e não temos tido uma primeira escolha, o que acho lamentável”, acrescenta o seu director.
Sobre os números que a Escola Portuguesa apresenta na gala, Filipe Graciosa destaca “nos saltos de escola, a qualidade das corvetas e das cabriolas montadas. O carroucel, onde nos preocupamos bastante com a precisão, a geometria e o grande rigor, e não só com a parte da espectacularidade” e refere como “o momento alto da noite” o solo que será executado pelo cavaleiro Gonçalo Carvalho, Picador Ajudante da Escola,com o garanhão Alter Real Rubi. Este conjunto que se iniciou na Escola tem feito uma longa carreira na competição desportiva que soma inúmeros títulos na modalidade de Dressage, onde constam participação nos Campeonatos Europeus, Jogos Equestres Mundiais, e que actualmente ambiciona uma participação olímpica.
Também com uma reconhecida carreira desportiva, o cavaleiro olímpico Ignacio Rambla, responsável pela Real Escuela, fala sobre esta vinda a Lisboa, onde esta escola estreou vários números que geralmente apenas apresenta em casa – “vamos apresentar um número de Doma Vaquera, que faz parte da nossa tradição equestre e um outro que são três cavalos em rédeas longas que executam todos os exercícios mais avançados” . A Escola fez uma selecção de cavaleiros e cavalos para espectáculo, “a média de idades dos cavalos é relativamente jovem” mas todos já se encontram num nível avançado de ensino. Sobre a opção de incluir um quadro de Doma Vaquera nos seus espectáculos, Ignacio Rambla reforça a importância e a espectacularidade desta monte, “faz parte da tradição espanhola, e mostra a polivalência dos cavalos e cavaleiros e é muito acarinhada pelo público”.
Pelo Cadre Noire falou-nos o Écuyer en chef Cor. Jean-Michel Faure, que se mostrou “muito orgulhoso com a responsabilidade de trazer a Lisboa a apresentação do Cadre Noir” que se apresenta com 6 cavaleiros e 8 cavalos de raça Sela Francês. Da apresentação da escola, o Coronel Fauvre destaca a Corveta de Saumur como o exercício que melhor representa o espírito do Cadre Noir. A par deste famoso salto de escola e dos números com obstáculos, montados e em rédeas longas, este grupo disitingue-se pela estética dos seus arreios rosa e branco que decoram as montadas e que nas palavras do Coronel Faure “simbolizam a liberdade”.
Antes do início do espectáculo, cerca de 7000 espectadores aguardam a entrada dos cavaleiros na arena. Um “pas-de-trois” dos 3 chefes das academias dá início a esta gala , seguir-se-ão números individuais de cada Escola, e ainda os números conjuntos dedicados aos saltos de Escola, onde são executados a pé e montados, exercícios tradicionais de Alta Escola como a Levada, a Corveta, a Capriola e a “Croupade”, um exercício típico do Cadre Noire, e que é um dos momentos de grande espectacularidade e que provoca o maior entusiasmo do público.
Dos exercícios individuais, destaco o Carroucel da Escola Portuguesa de Arte Equestre e o Pas-de-trois. O Carroucel apresentou-se com grande rigor e num formato ligeiramente reduzido em conformidade com a dimensão da arena. A escola evidenciou-se também pela qualidade dos altos de escola, nomeadamente as Capriolas executadas à mão e montadas, bem como as Corvetas.
A entrada na arena de uma cobra de 3 éguas Alter Real, duas delas afilhadas, e do decano garanhão Alter Real de nome Jacaré, foi um momento interessante que relembrou ao público a face menos visível da ribalta do espectáculo equestre. Duas destas éguas, Birra e Beringela, são filhas do garanhão Rubi que também se apresentou no Campo Pequeno.
Pouco depois, Rubi e Gonçalo Carvalho, executaram uma reprise que incluía os exercícios de Grande Prémio. O mais alto nível de competição de ensino onde o conjunto reviu muito recentemente os seus resultados a nível pessoal, no concurso internacional de dressage de Biarritiz, em França. As passagens de mão a tempo, executadas ao longo de um círculo, as piruetas, a passage e o piaffer, que é um dos exercícios onde o conjunto se destaca, fizeram parte da sua apresentação.
Com a alegria que é própria do modo de estar e da cultura castelhana, a Real Escuela conseguiu arrebatar o público em alguns dos seus números, nomeadamente na apresentação de Doma Vaquera ao som do tradicional flamenco , onde por vezes a prática e a funcionalidade se sobrepõe ao rigor técnico da equitação académica, e ainda alcançar momentos de grande beleza com a apresentação dos 3 cavalos em rédeas-longas.
O Cadre Noir, disitinguiu-se pela sua apresentação formal e sofisticada longe da linguagem ibérica, tocando o público pela sua estética trabalhada. Os saltos a obstáculos, sobre a mesa em torno da qual convivem cavaleiros das 3 escolas, e o salto sobre a cadeira e sobre o pilar, bem como o trabalho de obstáculos com rédeas longas, são apanágio desta escola e tiveram muito bom acolhimento junto do público.
A gala termina com a entrada na arena de todos os cavaleiros e das 3 escolas que saúdam o público em redor da arena, deixando o cumprimento final para os seus directores que se dá sobre um longo aplauso.
Quando terminam os aplausos e a sala fica vazia, muitos são os espectadores que aproveitam para ver de perto os artistas, cavalos e cavaleiros, agora sem traje de gala, enquanto os tratadores em ritmo acelerado guardam os arreios e preparam os cavalos para as viagens de regresso a casa, até ao próximo espectáculo.
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