O Preto como cunho de uma elite de cavalos Lusitanos
A cor preta de todos os cavalos e a sua beleza e energia sobressaem aquando da visita à Coudelaria Ortigão Costa que, por tradição, apenas cria animais de pelagem preta. Entrevistámos, nesta edição, Jorge Ortigão Costa – criador e filho do fundador da Coudelaria – e Daniel Pinto – cavaleiro que treina cavalos Ortigão Costa vocacionados para o desporto.
Artigo por: Joana Esparteiro | Entrevistas e Fotografias: Ana Escoval e Gonçalo Soares
Fundada em 1959 por Jorge Luís Ortigão Costa, esta Coudelaria mantém-se na Quinta da Fonte do Pinheiro, na Azambuja, desde a sua origem.
A éguada inicial, constituída por 25 animais, todos de pelagem preta, era privilegiadamente constituída por ferros das melhores Coudelarias da época.
Fúria foi o primeiro garanhão da Coudelaria (Ferro Assunção Coimbra) e toireou o histórico número de 105 toiros em 6 anos. Mais tarde, as filhas de Fúria e Elmo (Ferro Manuel Veiga) originaram cavalos que se destacaram na História da Tauromaquia nacional pela mão de cavaleiros como João Moura, os irmãos Peralta e Manuel Jorge Oliveira.
Deste modo, foi-se criando uma elite geracional de cavalos “bonitos e fáceis de montar”, como refere o criador Jorge Ortigão Costa, em entrevista à Dressage Portugal.
Um cavalo de referência e que levou a Coudelaria Ortigão Costa a solos internacionais foi Babel que, filho de égua preta, nasceu lazão e deixou a marca Ortigão Costa na base da criação de cavalos Lusitanos no Brasil. Confirmou as suas óptimas capacidades reprodutoras tendo tido 200 filhos.
Actualmente, outros cavalos fazem jus à qualidade a que a Coudelaria Ortigão Costa vai habituando o leque de criação nacional de cavalos e, nesta edição destaca-se o projecto de formação de uma “Dressage Team” que inclui, não só o maneio, mas também um método de criação cuidado para criar cavalos vocacionados para a vertente desportiva de Alta Competição.
As linhas de criação dos cavalos desde a concepção ao desmame funcionam, na Coudelaria Ortigão Costa, em três núcleos distintos mas complementares: o núcleo da Azambuja – “onde está o picadeiro, as cavalariças e os cavalos para venda. Nestas instalações fazemos o desmame dos poldros e a primeira fase da recria dos poldros”- o núcleo de Vila Franca – “onde pasta a éguada” – e outro núcleo em Elvas – “onde estão os poldros baixos e onde ficam até aos 3 anos”.
“Temos de fazer cavalos para alta competição mas não podemos fazer só para alta competição.”
Jorge Ortigão Costa
O criador Jorge Ortigão Costa elucida, em entrevista à DP, a existência de duas áreas de acção da Coudelaria no que respeita ao destino dos cavalos que cria: o lazer e a competição:
“Os objectivos da Coudelaria Ortigão Costa são os mesmos que os iniciais: fazer cavalos bonitos e fáceis de montar porque eu penso que temos de fazer cavalos para alta competição mas não podemos fazer só para alta competição porque é um nicho de mercado.”
De encontro com o que refere Jorge Ortigão Costa está a vontade de Daniel Pinto, cavaleiro e parte dinâmica do projecto “Dressage Team”, de levar os cavalos Ortigão Costa ao nível internacional da Alta Competição e esclarece que treina o cavalo Tálio há 5 anos, garantindo que este tem capacidades de excelência para enveredar por um caminho de ensino e de participação em provas olímpicas:
“O Tálio saiu em S. Jorge/Intermediária I na Rota do Sol com muito bons resultados. Acabou as provas a 66% em Intermediária I, ao nível internacional, o que é muito bom, e teve comentários de vários atletas e treinadores estrangeiros que disseram que é um cavalo com muita qualidade. Neste momento já faz passagens de mão a tempo, piaffe, passage (…) Penso que é melhor que o Galopin, em qualidade, embora tenhamos que esperar por resultados, mas acredito que venha a ser o substituto do Galopin.”
No que respeita às características do treino, “o trabalho é a peça fundamental para se conseguir ter bons resultados”, diz Daniel Pinto. Segundo o cavaleiro, este trabalho tem de ser intensivo e se há cavalos com “qualidades que se forem bem canalizadas podem ser pontos fortes”, tem de haver empenho e motivação por parte dos cavaleiros em evoluir e partir para a Alta Competição ao nível Internacional com segurança e confiança.
Enquanto Daniel Pinto foca a vertente desportiva, Jorge Ortigão Costa apesar de destacar que para um criador de cavalos é fundamental manter uma preocupação com a rentabilidade da coudelaria, considera viável e muito interessante “fazer cavalos mais virados para a Alta Competição: cavalos mais temperamentais, mais finos, com andamentos excelentes”.
Este investimento na Alta Competição ao nível Internacional torna-se uma mais -valia para a divulgação dos conjuntos de cavalos e cavaleiros uma vez que, como disciplina olímpica, a Dressage faz com que “sejam vistos pelos juízes” e a visibilidade consecutiva faz com que os cavalos sejam conhecidos e com que os juízes das provas confiem nas suas prestações atribuindo-lhes melhores pontuações, como refere Daniel Pinto.
No decorrer da conversa com o cavaleiro, surgiu a problemática da classificação das provas. Daniel Pinto considera que o correcto seria alterar o sistema de pontuação valorizando a média das notas de todos os juízes, uniformizando a avaliação e tornando-a mais justa.
Acrescenta que, mais do que alterações nos sistemas, os cavaleiros têm de “rotinar o cavalo” para que o juiz consiga avaliar conhecendo as capacidades do cavalo por tê-lo visto anteriormente e por ter assistido à sua evolução.
A Coudelaria Ortigão Costa destaca-se, assim, com a vontade de inovar e de chegar mais longe mantendo a qualidade quer ao nível do lazer quer da competição internacional.
Como curiosidade, Jorge Ortigão Costa relembra que muitas foram as críticas quando o seu pai, fundador da Coudelaria, decidiu seleccionar cavalos de pelagem preta e “hoje toda a gente diz que foi um sucesso e reconhecem o sucesso que foi porque não é fácil ter uma Coudelaria de cavalos pretos e fazer cavalos bons. É muito difícil, e pretos ainda é mais difícil porque estamos muito limitados na escolha de garanhões mas estamos quase com 50 anos de existência e neste momento somos já uma referência.”















